Lojas Universitárias e/ou Acadêmicas

Fui iniciado, elevado, exaltado em uma Loja Acadêmica, a qual presido há pouco mais de 03 (três) anos. Na minha curta vida maçônica (06 anos completados no último dia 25/11), já me deparei com algumas situações inusitadas, especialmente por ser membro de uma Loja Acadêmica, como cediço. Perguntas como: “Mas você é Maçom igual aos outros?”; “Está fazendo um estágio para ir posteriormente para uma Loja normal?”; “Mas você nem universitário mais é?!”, foram respondidas muitas vezes.

O desconhecimento sobre o real papel das Lojas Universitárias/Acadêmicas é patente. Isso ocorre, acredito, tanto pela ausência de propagação das informações necessárias quanto pelo insucesso de algumas Lojas Universitárias/Acadêmicas que culminaram na criação de um pré-conceito sobre as mesmas. Sim, infelizmente não são raros os “causos” contados Brasil afora sobre Lojas que, por motivos que não convém serem explicitados aqui, foram ao fracasso. Entretanto, não é sobre tais fracassos que falaremos hoje, mas sim acerca de um sucinto panorama histórico das Lojas Universitárias/Acadêmicas, assim como do importante papel que desempenham nos dias atuais.

Nestas breves linhas adiante transcritas, procuraremos responder: 1 – as Lojas Acadêmicas são uma invenção brasileira? 2 – Uma invenção do GOB? 3 – São uma extensão de ordens paramaçônicas, como a Ação Paramaçônica Juvenil (APJ) e a Ordem DeMolay? Por mais que para alguns as respostas estejam claras como os raios do sol, tenham certeza que são questionamentos enfrentados na labuta diária dos maçons pertencentes a tais Lojas.

Atribui-se a criação da primeira Loja Universitária/Acadêmica o ano de 1730, através da denominada “University Lodge # 74”. Tal oficina abrigava os estudantes das Universidades de Oxford e Cambridge. Dentre seus membros estava Jean Théophile Désaguliers, filósofo francês, eleito como o terceiro Grão-Mestre em 1719 e Vice-Grão-Mestre em 1723 e 1725 da Grande Loja da Inglaterra, considerado por muitos doutrinadores como um dos grandes idealizadores da maçonaria especulativa.

Conforme anotações históricas, a segunda Loja Universitária que se tem notícia foi a “Westminster and Keystone Lodge”, fundada em 1722, porém, que se tornou Universitária em 1855, passando a abrigar os estudantes das Universidades de Oxford e Cambridge, assim como sua predecessora.

Ao utilizar o termo “se tornou Universitária”, significa dizer, apenas, que tal Loja passou a se reunir dentro das Universidades supracitadas, voltando seus olhares para o público acadêmico, permanecendo inalteradas todas as outras disposições legais.

Assim, em um primeiro momento histórico, o que definia a qualidade de “universitária” ou “acadêmica” era tão somente o local de suas reuniões e o seu “público alvo”, ou seja, para qual público os trabalhos eram voltados. Lembremos que naquela época não havia tanta aceitação da maçonaria na sociedade civil, de modo que os trabalhos quase sempre ocorriam às escuras, assim como igualmente inexistia a tecnologia que temos hoje, ensejando que os trabalhos maçônicos (sociais, filantrópicos, de estudo etc) ficavam restritos a determinado grupo.

Outro exemplo de Loja Universitária é a “Apollo University Lodge”, fundada em 1818, tendo realizado sua primeira sessão ritualística em 1819 e regular até os dias atuais. Seus trabalhos ocorrem dentro da Universidade de Oxford e contam com cerca de 300 membros regulares. Oscar Wilde, por exemplo, famoso escritor, iniciou na Loja Universitária Apollo em 23 de fevereiro de 1875, quando possuía 20 anos.

Nos Estados Unidos, destacamos as Lojas “Richard C. MacLaurin Lodge” “ The Harvard Lodge”, vinculada a Universidade homônima, e “Boston University Lodge”. Segundo dados do sitio eletrônico da Loja da Universidade de Harvard, esta foi criada em 18 de março de 1922 e considerada a segunda Loja Maçônica Universitária dos Estados Unidos e teve como um dos seus fundadores o ex-presidente norte americano Theodore Roosevelt.

Já no Brasil, a denominação “Loja Universitária” existe desde 1975, quando foi fundada a “Loja Universitária n. 1928”, no Oriente de Bragança Paulista/SP, em 20 de agosto do referido ano, jurisdicionada ao GOB.

Posteriormente, foi  fundada a “Fraternidade Acadêmica Piratininga n. 2862”, no Oriente de São Paulo/SP, aos 20 dias de abril de 1995, também federada ao GOB.

A Fraternidade Acadêmica Piratininga foi idealizada e fundada pela Loja Maçônica Piratininga n. 140, conhecida popularmente como “A fidelíssima”, fundada em 28 de agosto de 1950, GOB. Naquela época, a “fidelíssima” funcionava tal qual um corpo patrocinador da Loja Acadêmica, influenciando diretamente em seus trabalhos, auxiliando na gestão e organização.

Para determinados autores, a Fraternidade Acadêmica Piratininga é considerada como a primeira loja genuinamente acadêmica do Brasil, uma vez que só admitia em seu seio maçons que estivessem cursando a universidade e professores. Uma vez concluído o respectivo curso, o maçom poderia continuar nas fileiras da aludida Loja, porém, a história mostra que a maior parte dos membros migravam para a “Loja patrocinadora”, supracitada, fazendo com que se criasse o mito, existente até hoje em dia, de que as Lojas Acadêmicas são apenas “lojas intermediárias”, responsáveis por filtrar os “verdadeiros maçons”.

Deve-se salientar que a inciativa de criação de Lojas Acadêmicas no Brasil partiu do GOB. Segundo dados extraídos de seu site, em 2004 existiam 53 Lojas Universitárias no Brasil. Os dados atuais, infelizmente, encontram-se desatualizados e com difícil acesso por nós, meros mortais…

Enfim, como podemos resumir a questão das Lojas Universitárias/Acadêmicas, respondendo as perguntas outrora propostas?

De imediato, insta salientar que não existe o termo “Maçonaria Universitária/Acadêmica”. O que existe são Lojas Maçônicas intituladas de Acadêmicas ou Universitárias.

Assim, a primeira característica a sobrelevar é que não há diferenciação legal entre as lojas “acadêmicas” e “não acadêmicas”, ensejando, portanto, igualdade de direitos e obrigações, nos termos do RGF e Constituição.

Uma segunda característica, decorrente da primeira, repousa no fato de que as Lojas Universitárias seguem a mesma legislação das lojas “não universitárias”, assim como não há qualquer diferenciação nos trabalhos ritualísticos, de acordo com o ritual escolhido. Não há, por exemplo, um REAA das Lojas Universitárias e um das não universitárias.

Uma terceira característica: as lojas PROCURAM iniciar acadêmicos, ex alunos, professores, enfim, pessoas relacionadas com a Universidade. Porém, não se trata de uma OBRIGAÇÃO.

Do ponto de vista prático, valendo-se apenas da legislação do GOB, há apenas a isenção de determinadas taxas e minoração de outras para o jovem acadêmico, compreendido pela legislação maçônica como o estudante de curso superior com até 25 anos (benefício esse que se estende aos DeMolays até 25 anos também).

A quarta característica por nós trazida e diretamente relacionada com a anterior, se refere ao horário e dias das reuniões. Considerando que a maior parte de seus membros estudam ou lecionam, seja no período diurno, noturno ou integral, as Lojas Acadêmica, em regra, reúnem-se aos finais de semana, em horário que não prejudique as atividades estudantis. Igualmente, considerando que muitos acadêmicos não são originários da cidade em que cursam faculdade, as reuniões das referidas lojas tendem a ser realizadas com um espaçamento maior, geralmente quinzenal. Contudo, algumas lojas acadêmicas reúnem-se mensalmente, ao passo que outras, especialmente nos EUA, reúnem-se menos ainda (bimensalmente, trimensalmente, etc.)

Sobre a nomenclatura, tecnicamente inexiste diferenciação de UNIVERSITÁRIA para ACADÊMICA. Ambos vocábulos se enquadram no ideal preconizado por tais lojas.

Portanto:

1 – as Lojas Acadêmicas são uma invenção brasileira? – NÃO.

2 – Uma invenção do GOB? – Não podemos afirmar que se trata de uma invenção, mas sim, da reprodução de algo que já ocorria em outros países.

3 – São uma extensão de ordens paramaçônicas, como a Ação Paramaçônica Juvenil (APJ) e a Ordem DeMolay? – Obviamente, NÃO.

Com estas curtas linhas esperamos ter, ao menos, suscitado o debate e instigado na busca por informações sobre as Lojas Universitárias/Acadêmicas, afastando os pré-conceitos existentes, ainda que velados.

Adiante, alguns links que se referem à temática, assim como um importante trabalho de nosso Irmão Lucas Francisco Galdeano, utilizado com parte da fonte de pesquisa para estes escritos.

A Maçonaria Universitária, por Lucas Francisco Galdeano

The University Lodge: A History and Case Study

Site da Loja Apollo #357

 

MA_Harvard

*BRASÃO DA HARVARD LODGE, DISPONÍVEL EM: <http://masonicgenealogy.com/MediaWiki/index.php?title=Harvard&gt;

 

 

 

10 comentários em “Lojas Universitárias e/ou Acadêmicas

  1. Parabéns meu irmão José Gabriel, pelo trabalho maravilhoso
    que faz a nossa Loja Maçônica Acadêmica Templários Serra de São Domingos n* 4.164.
    Você é um exemplo de virtudes, dedicação e conhecimentos da História Maçonaria..
    Continue sempre proporcionando a todos nós essa alegria e alegrias.
    Obrigado e grande abraço fraternal.

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  2. Am. Ir. José Gabriel,
    Muito obrigado por nos oferecer seus conhecimentos. Realmente muitos de nós criticamos antes de pesquisarmos e conhecer melhor os assuntos alheios ao nosso entendimento.
    Parabéns pela iniciativa.
    Abraço fraterno.

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  3. Parabéns estimado Irmão José Gabriel, iniciativa que estimula e ilumina os caminhos daqueles Irmãos interessados na cultura Maçônica, sem dúvidas engrandece a nossa Ordem. TFA Sergio Kemp

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