Historiografia do Rito Moderno – Parte 1

a-liberdade-guiando-povo-pintura-eugene-delacroix-5b4cd89a2aac0Após um sabático período de descanso, retornamos ao ofício da escrita, sob o prisma essencial do Rito Moderno. Para tanto, inauguraremos uma categoria de estudos acerca da história deste Rito, dividida em partes para facilitar a leitura e não torna-la extremamente cansativa.

 

De imediato, convém destacar que com tais escritas não se objetiva traçar uma única vertente de estudos, indene de críticas ou debates. O que se pretende, pois, é estudar o Rito Moderno de forma coesa, fundamentada, longe de achismos ou assertivas de difícil comprovação. Aliás, impende mencionar que até mesmo as datas citadas no corpo desse artigo podem diferir de outros estudos, haja vista a fonte de pesquisa utilizada.

 

Pois bem. Escrever precisamente sobre a origem de um Rito é algo inimaginável, quiçá impossível. Realidade e ficção, mitos e fatos, se confundem na árdua tarefa de traçar um estudo linear, preciso, que comprovadamente aborde as origens do Rito Moderno.

 

Para auxiliar na compreensão dessas pequenas linhas, importa, nesta primeira parte, esboçar a situação histórica da Maçonaria na época do surgimento do Rito Moderno. E, neste ponto, não há como negar que a Maçonaria, tal qual entendida e vivenciada nos dias atuais, é fruto da Grande Loja de Londres e, sendo descendente direta da Maçonaria Inglesa, advém de uma corporação eminentemente cristã.

 

Neste diapasão, Joaquim Villalta relembra que foi a Maçonaria Inglesa, em 1390, que elaborou as denominadas “Antigas Obrigações”, de cunho estritamente religioso. Católica, até tornar-se Anglicana em 1534.

 

Tais assertivas podem ser comprovadas pela simples análise do conteúdo essencialmente bíblico que remontam os escritos da época. Contudo, também não se pode olvidar que a Maçonaria sofreu e ainda sofre sucessivas transformações, verdadeiras metamorfoses, que acabam por modificar sua identidade original, até pelo fato de se tratar de uma instituição – em tese – progressista, preocupada com a evolução sua e de seus membros.

 

Há mais de 300 (trezentos) anos, a história da Maçonaria é marcada pela sua reivindicação e descendência das guildas ou corporações medievais de artesãos e construtores, verdadeiros pedreiros livres. Atribui-se tal denominação, aliás pelo fato de tais grupos serem conhecidos pela capacidade de proteger tanto sua arte quanto seus pares, mediante compromissos de segredo e de um sistema progressivo de desenvolvimento de suas habilidades, que ia de aprendiz a mestre, de modo a garantir a qualidade das construções.

 

Ainda, eram conhecidos por serem “livres” haja vista poderem transitar entre os diversos locais em que eram solicitados, ao contrário dos servos que estavam presos à terra onde viviam e trabalhavam.

 

Em 24 de junho de 1717, na taverna Goose and Gridiron Alehouse, nos fundos da Igreja de São Paulo, em Covent Garden, no coração de Londres, quatro Lojas Maçônicas locais reuniram-se o propósito de criação de uma estrutura central que pudesse organizar toda a Maçonaria.  As quatro Lojas, conhecidas pelos nomes das cervejarias ou tavernas em que se reuniam eram: Goose and Gridiron Alehouse, Crown Alehouse, Rummer and Grapes Tavern e Apple Tree Tavern. Cria-se, então, a Grande Loja da Inglaterra, que trabalhava com os três primeiros graus simbólicos.

 

Como dito, um dos objetivos da Grande Loja da Inglaterra era a de padronizar e regularizar a prática maçônica. Entretanto, tendo em vista o grande número de Lojas esparsas por toda a Inglaterra, cujas tradições próprias dificultavam a tão sonhada padronização, houve uma forte resistência ao reconhecimento daquele organismo como uma verdadeira “Potência” Maçônica.

 

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A título de ilustração da citada resistência, destaca-se que outras duas Grandes Lojas surgiram: em 1725 e em 1751. A primeira, denominada “Grande Loja de Toda a Inglaterra”, desapareceu logo em 1792. A segunda, denominada “A Grande Loja dos Antigos” ofereceu maior resistência àquela constituída em 1717. Seus membros foram responsáveis por intitular – pejorativamente – a Grande Loja da Inglaterra de “Loja dos Modernos”, asseverando que estes haviam desvirtuado os rituais, ignorado as tradições e criando uma Maçonaria “não original”.

 

Apesar de já ter ficado perceptível, anote-se que não obstante a nomenclatura em questão, a “Loja dos Antigos” é cronologicamente mais nova que a “Loja dos Modernos”. Porém, considerando não se tratar do escopo desta publicação, não nos incumbe adentrar no mérito da “disputa” entre os Antigos x Modernos.

 

Por quase 70 (setenta) anos as Lojas dos Antigos e dos Modernos disputaram espaço na Maçonaria, até que em 1813 chegam a um acordo em comum e se fundem, dando origem a Grande Loja Unidade da Inglaterra (GLUI).

 

Retornando um pouco no tempo, analisando agora a evolução da Maçonaria no solo francês, é de se verificar de imediato que tal desenvolvimento deu-se de forma peculiar. Ora, durante a era das grandes construções arquitetônicas na Europa, na Idade Média, os pedreiros ditos “operativos” já se organizavam em guildas e corporações. Com a fundação da Grande Loja da Inglaterra em 1717, cria-se, então, o pensamento de uma organização voltada mais para o pensamento filosófico e especulativo, deixando de lado toda a operacionalização até então presente. Neste momento histórico, aliás, as noções de fraternidade e solidariedade ganham força.

 

Atribui-se a criação da Francomaçonaria à chegada de exilados ingleses, irlandeses e escoceses na França, por volta de 1688. Estes, partidários do Rei James II, chamados de Jacobitas, foram forçados a abandonar seus países durante a Revolução Gloriosa.

 

A Revolução Gloriosa de 1.688 ocorreu devido aos temores de uma restauração católica depois da conversão ao catolicismo do Rei Carlos II e da sabida devoção católica de seu sucessor James II, já que os britânicos eram firmemente protestantes desde a conversão de Henrique VIII. A Revolução Gloriosa representou a reafirmação da Monarquia Parlamentar, onde o poder do rei está submetido ao Parlamento. O novo Rei, Guilherme III aceitou a “Declaração de Direitos” (Bill of Rights) e em 1.689 assumiu a Coroa. Essa declaração eliminava a censura política e reafirmava o direito exclusivo do Parlamento em estabelecer impostos e o direito de livre apresentação de petições (GIANELLI; TAVARES; CARON, 2011).

 

Assim, a primeira Loja Maçônica em solo Francês, La parfaite egualité”  (A perfeita igualdade) teria sido fundada por Irlandeses ainda em 1688. Em 1726 é fundada em solo francês, em Paris,  a primeira Loja de “origem” Inglesa, filiada diretamente à Grande Loja da Inglaterra.

 

Então, como contexto histórico à época, tem-se a existência de dois grupos de Lojas: as escocesas, fundadas pelos Jacobitas; as inglesas, filiadas à Grande Loja da Inglaterra.

 

Em 1736 as Lojas de origem inglesas sediadas em Paris fundaram a denominada “Grande Loja Provincial”, o que ocorreu em clara oposição a obediência Inglesa que se negava a permitir a criação de um “filial” sua na França. No mesmo ano, também foi fundada a Grande Loja da França, constituída posteriormente em 1738 e tendo como primeiro Grão Mestre Louis Pardaillon de Gondri,  Duque de Antin.

A 24 de junho de 1738, é realizada uma Assembleia Geral dos maçons, na qual é conferido, ao Duque D’Antin (Louis Pardailon de Gondrin), o título de “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”, constituindo assim, de fato, a Grande Loja de França, embora essa denominação só aparecesse, oficialmente, em 1765. Esse fato dissociava a Maçonaria francesa da Grande Loja de Londres. Este Grão-Mestre faleceu em 09 de dezembro de 1743 (GAGLIONE, 2014, p. 19).

 

Já em 11 de dezembro de 1743, Louis de Bourbon, Conde de Clermont, é eleito Grão-Mestre da França. Enquanto a Maçonaria inglesa permanecia tradicionalmente ligada à Bíblia – até pelo seu relacionamento direto com a Igreja Anglicana, reitera-se -, a Maçonaria Francesa passou a adotar uma séria de doutrinas com concepções heterogêneas, o que acabou sendo o ponto de partida para o aparecimento dos chamados “Altos Graus”.

 

Nos anos que se seguiram, houve uma verdadeira proliferação de Lojas Maçônicas em solo francês. Em apenas 06 anos, frise-se, havia cerca de 20 (vinte) Lojas apenas em Paris, além de inúmeras outras espalhadas pelas províncias vizinhas, cujos membros basicamente eram viajantes e militares.

 

Ocorre que a Grande Loja da França – idealizada para reunir as lojas esparsas e organizar a Maçonaria na França – não estava conseguindo atingir êxito nessa difícil empreitada. Em razão disso, no ano de 1771, após sucessivas assembleias e tratativas para tentar organizar a Ordem, o referido Grande Oriente foi declarado extinto e substituído pela “Grande Loja Nacional da França”. Contudo, um ano após (1772), a referida Grande Loja transforma-se no denominado “Grande Oriente da França”, instalado posteriormente em 24 de junho de 1773.

Grande Oriente França

 

Este novo Grande Oriente desenvolveu-se de forma intensa, de modo que em 1778, das 547 Lojas francesas existentes, 300 estavam sob sua jurisdição, além de manter correspondência com aproximadamente 1200 Lojas estrangeiras. Como não poderia ser diferente, após 1813 nasce, então, certa rivalidade entre o Grande Oriente da França e a Grande Loja Unida da Inglaterra, que demandava o reconhecimento como a “Grande Loja Mãe”, única descendente direta da Maçonaria Operativa. O Grande Oriente da França, por sua vez, almejava o posto de equivalência à Grande Loja Unida da Inglaterra.

 

Sobre o Rito propriamente dito, destaca-se em um primeiro plano que os refugiados ingleses praticavam o ritual oriundo da Grande Loja da Inglaterra que passou a ser gradualmente traduzido para o Francês. Assim, em decorrência da nomenclatura que tal Grande Loja possuía, como cediço, o respectivo ritual ficou conhecido como “Rito dos Modernos” ou “Rito Moderno”. Ainda, por estar sendo praticado na França, alguns estudiosos intitularam tal Rito de “Rito Francês“, objetivando distingui-lo de outros sistemas conhecidos, como os escoceses, por exemplo.

 

Em 1.761 é oficialmente criado o Rito Francês ou Moderno, originalmente com apenas os 3 primeiros graus, simbólicos, ainda no âmbito da Grande Loja da França tendo sido constituído a 24 de dezembro de 1.772 e proclamado pelo Grande Oriente da França a 9 de março de 1.773. O então denominado “Rito Moderno” era o mesmo praticado pela Grande Loja da Inglaterra desde 1717.

 

Em suas origens, o Rito Moderno dispunha de 03 (três) graus simbólicos e, como já mencionado, teve como base o Rito original da Grande Loja da Inglaterra de 1717. Um de seus objetivos, anote-se, era o de dar uma identidade nacional à maçonaria francesa e, por outro lado, tentar organizar a estrutura Maçônica da época, a qual sofria com uma grande e irrestrita proliferação desenfreada de Ritos e Graus Superiores.

 

Neste passo, o Rito Moderno buscava manter-se fiel aos preceitos da “maçonaria moderna” idealizada em 1717, a qual estava sendo “desfigurada” pela supracitada proliferação desenfreada de Graus. Sobre tal questão, falaremos em outro momento, assim como a questão dogmática do Rito Moderno.

 

Vamos dar uma pequena pausa nos estudos e, em breve, retornaremos com mais.

 

LEF


REFERÊNCIAS:

GAGLIONE, Paulo César. Graus Filosóficos do Rito Moderno ou Francês: Considerações Históricas. 2. ed. São Paulo: A Gazeta Maçônica, 2014.

GIANELLI, Reinaldo; TAVARES, José Carlos; CARON, Adelar Paulo Caron. Maçonaria e Rito Moderno. Peça de Arquitetura destinada à apresentação na Loja ARLS Manoel Tavares de Oliveira nº 2396. Disponível em: < https://docs.wixstatic.com/ugd/b6e977_96f99d65f94a1c07f81d73974e1fb47d.pdf&gt;. Acesso em 02 fev. 2019.

GUERRA, Victor. Rito Francês ou Moderno: História, reflexões e desenvolvimento. Tradução de José Filardo. Publicação Independente, 2018.

MATA, Joaquim Villalta. Em Ouro & Azul: Reflexões, Estudos e Ensaios sobre o Rito Moderno e Francês. Londrina: A Trolha, 2018.

RITO MODERNO BRASIL. Disponível em <http://ritomodernobrasil.org/um-breve-estudo-da-maconaria-na-franca/&gt;. Acesso em 02 fev. 2019.

2 comentários em “Historiografia do Rito Moderno – Parte 1

  1. Muito aprendizado adquirido com seu texto irmão. Inclusive me trouxe informações de que a maçonaria tenha origens mais antigas do que eu acreditava. Agradeço o conhecimento disponibilizado e aguardo ansioso a parte II deste conteúdo que muito me interessa.

    TFA

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