Landmarks

A iniciação maçônica é o primeiro momento no qual o rito é destinado a marcar uma efetiva ruptura entre o estado mundano e o caminho de pesquisa e aperfeiçoamento que o neófito vai percorrer na busca incessante pela verdade (ainda que inatingível). Este caminho admite inúmeras interpretações, adquirindo um sentido pleno quanto integrado a uma comunidade de Iniciados, que continuam os trabalhos realizados pelos seus antecessores, transmitindo-os enriquecidos às futuras gerações, sedimentados num patrimônio de conhecido do qual podemos chamar de “Tradição”.

Segundo consta no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o vernáculo “tradição” advém do latim traditione, podendo ser definido como “ato de transmitir ou entregar; transmissão oral de lendas, fatos etc., de idade em idade, geração em geração; transmissão de valores espirituais através de gerações; conhecimento ou prática resultante da transmissão oral ou de hábitos inveterados; recordação; memória”.[1]

Essa aludida transmissão de valores, de conhecimento, opera nas cerimônias iniciáticas, criando um elo entre a Loja e seus membros, bem como entre os próprios membros, tal qual uma cadeia ininterrupta de Mestres e Discípulos que liga os Maçons desde os primórdios. Neste passo, a transmissão iniciática é suportada por um conjunto de regras de conduta que existem desde os tempos imemoriais, essenciais à definição e funcionamento de qualquer Jurisdição Maçônica. Tais regras de conduta podem ser chamadas de Landmarks.

A palavra em estudo origina-se do inglês LAND: terra, país, terreno ou território, MARK: marco, sinal, mancha. Em inglês define-se LANDMARK como lugar conhecido, ou marco de território. Em uma tradução livre, chamaríamos de marca de terreno, estaca, baliza, lindeiro, marco lindeiro, limite territorial.

Landmarks

A expressão ora em estudo encontra forte inspiração no Velho Testamento, notadamente dentro de Provérbios 22 e 23 / 28 e 10: “Não removas os antigos limites que teus pais fizeram” e “não removas os antigos limites nem entre nos campos dos órfãos”. Deuteronômios ainda versa: “não tomarás nem mudarás os limites do teu próximo que os antigos estabeleceram na tua propriedade” (19,14) e “Maldito aquele que remover os marcos do seu próximo” (27:17).

A origem da expressão dentro da seara Maçônica se deu em 1720 com os Regulamentos Gerais compilados por George Payne, durante o seu segundo mandato como Grão-Mestre da Grande Loja de Londres. Os Regulamentos Gerais alhures mencionados foram adotados como “Lei Orgânica e Terceira Parte Integrante das Constituições dos Maçons Livres” (Constituição de Anderson), de 1721,  e em seu artigo 39, estabelecia basicamente que todas as tradições sejam preservadas, nos seguintes termos:

Cada Grande Loja anual tem inerente poder e autoridade para modificar este Regulamento ou redigir um novo em benefício desta Fraternidade, contanto que sejam mantidos invariáveis os antigos landmarks[2].

Posteriormente, em 1723, a Grande Loja da Inglaterra substituiu a palavra landmark por rule (regra). Contudo, em nenhum momento histórico há uma definição clara, expressa do que sejam os landmarks. Historicamente, tais princípios gerais estão intimamente ligados com a necessidade da Maçonaria em preservar alguns valores e regras, especialmente em tempos difíceis, tal qual os de guerra civil (como ocorrera na Inglaterra no século XVIII).

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A preservação dos aludidos valores garante a unidade da Ordem Maçônica, mesmo em momentos históricos conturbados ou obscuros, mantendo intocável a Fraternidade notadamente reconhecida dentro desta respeitável instituição.

John S. Simons define os landmarks de maneira bem abrangente, vejamos:

Presumimos que aqueles princípios de ação sejam Landmarks  que vêm existindo desde tempos imemoriais, seja na lei escrita ou não escrita: que são identificados com a forma e a essência da sociedade: com os quais a grande maioria concorda, não pode ser alterada, que todo maçom é obrigado a manter intacta sob as sanções mais solenes e invioláveis​​[3].

É bastante claro que esta definição inclui três elementos necessários que definem um landmark como tal:

  1. Ele existe desde tempos imemoriais;
  2. Ele expressa a forma e essência da Maçonaria Especulativa;
  3. Ele nunca poderia ser modificado.

Sobre a imutabilidade dos landmarks, porém, questiona-se: quem determinou essa imutabilidade? Quando? Se eventualmente um landmark for modificado, ele deixará de expressar a representação da Maçonaria? É proibido questionar um landmark?

Pois bem. Questões como essas dificilmente serão respondidas a contento. Porém, algumas reflexões podem ser tecidas.

A necessidade de estabelecer tais limites pode ter origem no período de transição em que Lojas Operativas passaram a receber maçons “não operativos”. Também se aplica à necessidade de se estabelecer regras criadas pelos “operativos” para os recém-chegados “especulativos”.

Nesse ponto, ressalta-se que não há uma listagem oficial de todos os landmarks, relembrando que diversos estudiosos da Maçonaria tentaram concretizar tal intento, porém nunca chegaram a um consenso. Assim, o número de landmarks pode variar, todavia, sempre estarão sob o pálio de alguns preceitos fundamentais.

Albert Galletin Mackey compilou vinte e cinco regras, landmarks, dentre os quais destacam-se os seguintes ensinamentos, nos dizeres de Nicola Aslan:

Nessa doutrina de Albert Galletin Mackey vamos encontrar o reconhecimento maçônico; divisão dos graus simbólicos; lenda do mestre Hiram Abiff; existência e prerrogativas do Grão- Mestrado; reunião dos irmãos em unidades maçônicas; governo da loja por um Venerável Mestre e dois Vigilantes; cobertura da loja; faculdade de representação de cada irmão em reuniões da entidade; direito recursal e visitação à outra congênere; identificação do visitante; proibição de intervenção de uma unidade sobre a outra; submissão do obreiro à legislação onde residir, independentemente de filiação; proibição de ingresso na Ordem de portadores de defeitos físicos e mutilados e ainda de mulheres; crença no GADU e vida eterna; existência de um Livro da Lei; igualdade para todos dentro da loja; segredo da iniciação; implantação da Maçonaria Especulativa, e, finalmente, “é o que afirma a inalterabilidade dos anteriores, nada lhes podendo ser acrescido ou retirado, nenhuma modificação podendo ser-lhes introduzida. Assim como de nossos antecessores os recebemos, assim os devemos transmitir aos nossos sucessores”. [4]

Quando analisamos os Landmarks de Mackey, podemos discernir quatro grupos:

  1. Aqueles relativos à fraternidade e à essência da Maçonaria: § §. 1-3, 9, 11, 18-24;
  2. Aqueles que se referem o Grão-Mestre e dos seus direitos: § §. 4-8;
  3. Aqueles que dizem respeito os direitos de um irmão: § §. 12-15, 17;
  4. Aqueles que se referem os deveres de uma loja, incluindo interrelações entre lojas: § §. 10, 16.

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Insta salientar que a compilação feita por Mackey é a mais conhecida no Brasil. Ademais, a diversidade de compilações é tão grande que como salienta Nicola Aslan, há pelo menos quinze listas de landmarks, adiante aduzidas:

  • 3 para Alexander S. Bacon e Chetwode Crawley;
  • 6 para a Grande Loja de Nova York, que toma por base os capítulos em que se dividem as Constituições de Anderson;
  • 7 para Roscoe Pound, a Grande Loja da Virgínia, e o cubano Carlos F. Betancourt;
  • 9 para J. G. Findel;
  • 10 para a Grande Loja de New Jersey;
  • 12 para A. S. Mac Bride;
  • 15 para Jonh W. Simons e para a Grande Loja de Tennessee;
  • 17 para Robert Morris;
  • 19 para Luke A. Lockwood e a Grande Loja de Connecticut;
  • 20 para a Grande Loja Ocidental de Colômbia, com sede em Cali;
  • 25 para Albert G. Mackey e Çhalmers I. Paton e ainda a Grande Loja de Massachussets, a qual, embora só admitindo 8 Landmarks, estes são iguais àqueles enunciados por Mackey;
  • 26 para a Grande Loja de Minnesota;
  • 29 para Henrique Lecerff,
  • 31 para o Dr. Oliver;
  • 54 para H. G. Grant e para a Grande Loja de Kentucky[5].

Analisando alguns dos landmarks compilados, não é difícil encontrar vários que não estão de acordo com os objetivos típicos da Maçonaria, tampouco como reflexos de uma Escola de Moralidade. Há, inclusive, algumas invenções que nada representam os famigerados usos e costumes da época, supostamente imutáveis.

Debruçando os olhares sobre os vinte e cinco landmarks de Mackey, já citados, percebe-se que os mesmos representam somente aspectos estruturais da Maçonaria, não necessariamente seus princípios morais. Por exemplo, os landmarks relacionados com a lenda do terceiro grau não se relacionam diretamente com o pretendido sistema de moralidade, com valores básicos imutáveis (relembrando que o sistema de três graus foi criado apenas por volta de 1730).

Como já destacado no preâmbulo deste estudo, por mais que um Maçom tenha que observar os landmarks, inexiste uma definição clara e oficial do que seja um landmark.

Nestes termos, no que concerne aos princípios norteadores das compilações retro citadas, é patente a existência de alguns valores básicos que podem ser extraídos de todas as listagens supra, em que pese a contundente divergência ora averiguada.

Observando as relações de landmarks, é possível extrair alguns pontos em comum:

  • Independência e governo próprio das Grandes Lojas;
  • Crença na imortalidade da alma;
  • Crença em um princípio Criador;
  • Presença obrigatória de um livro sagrado, esquadro e compasso em Loja;
  • As virtudes de uma maçom (ser livre e de bons costumes);
  • O sigilo sobre os modos de reconhecimento;
  • A vedação de discussão sobre política e religião quando fundadas em sectarismo.

Em regra, estes atributos são responsáveis por formar a Maçonaria em sua essência, cujo objetivo seria o de garantir a perpetuidade da Ordem, mantendo sua essência imaculada. Estamos, pois, no caminho certo?

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REFERÊNCIAS

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira S.A. 2006, p. 1.696.

[2] Cópia traduzida disponível em: <https://bibliot3ca.com/constituicao-de-anderson-texto/&gt;.

[3] Texto original disponível abaixo.

[4] ASLAN, Nicola. Landmarques e outros problemas Maçônicos. São Paulo: Aurora. p. 13.

[5] ASLAN, Nicola. Landmarques e outros problemas Maçônicos. São Paulo: Aurora. p. 13.

 

BIBLIOGRAFIA

SIMONS, John W. The principles and practice of Masonic jurisprudence. Disponível em: <Simons>

 

 

 

 

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