Notas sobre a Educação Maçônica – Parte 1

Tema que, infelizmente, acaba fugindo dos diálogos mais comuns em Maçonaria, a Educação Maçônica se afigura como importantíssima para um melhor entendimento de tudo aquilo que nos cerca, em se tratando da prática da Arte Real.

Sempre que nos referimos à palavra “educação”, vem a mente a noção de uma escola, faculdade, ou seja, de um local dedicado ao estudo e aperfeiçoamento.

Em linhas gerais, a palavra EDUCAÇÃO advém do o latim educatio, observando a associação e uso do verbo educar como educāre, do qual se desprende a raiz em educere que significa “transmitir uma premissa de orientar ou conduzir”; “promover o desenvolvimento intelectual e cultural do indivíduo e, ao mesmo tempo, incentivar a aprendizagem de conhecimentos e habilidades”.

De forma superficial, os mais afoitos vão dizer que o termo EDUCAÇÃO MAÇÔNICA, então, seria o ato ou ação de transmitir o conhecimento, de orientar e conduzir. Isso, obviamente, não está errado.

Em inúmeras passagens dos nossos trabalhos, independente do grau ou rito, é exaltado o dever geral de educarmos: educarmos nossos aprendizes e companheiros; educarmos à nós mesmos, enfim, a prática de orientar está sempre presente na seara maçônica.

De igual forma, também somos instados a conduzir nossos irmãos, de diversas formas: literalmente, durante as viagens simbólicas e em outros momentos litúrgicos, e simbolicamente através de instruções, tempos de estudo etc.

Devemos lembrar, não fora de propósito, que um dos pilares da maçonaria operativa era justamente o ensino do ofício de pedreiro/construtor, criando-se um verdadeiro sistema educacional, de modo a preservar as práticas do ofício e repassá-las a quem de direito.

Mas, em que consiste esse sistema educacional? Consiste apenas em repassarmos as instruções de cada grau? Afinal, educarmos o quê?

Para responder essa questão, como mencionado, precisamos primeiro consolidar algumas questões básicas.

A primeira delas diz respeito ao conceito de MAÇONARIA. Isso pode ressoar como óbvio, porém, a título de ilustração, no ano de 2018 uma pesquisa encomendada pela Confederação Maçônica Interamericana, realizada com 12 mil maçons, mostrou o inverso. Naquela oportunidade, mostrou-se que menos de 5% dos maçons brasileiros sabiaem qual é o real objetivo institucional da Maçonaria…

Quando se diz “objetivo institucional”, estamos caminhando na questão mais básica de todas: O que é a Maçonaria?

Neste sentir, a definição mais comum de maçonaria seria a de “um belo sistema de moralidade velado em alegorias e ilustrado por símbolos”. Trata-se de um conceito simplificado do que William Preston apresentou em sua clássica obra, “Esclarecimentos sobre Maçonaria”, vejamos:

“Um sistema regular de moralidade, concebido em uma tensão de interessantes alegorias, que desdobra suas belezas ao requerente sincero e trabalhador”.

Willian Preston, 1772.

De forma mais complexa, porém, a Coil´s Masonic Encyclopedia apresenta o seguinte conceito de maçonaria:

“Maçonaria, em seu sentido mais amplo e abrangente, é um sistema de moralidade e ética social, e uma filosofia de vida, de caráter simples e fundamental, incorporando um humanitarismo amplo e, embora tratando a vida como uma experiência prática, subordina o material ao espiritual; é moral, mas não farisaica; exige sanidade em vez de santidade; é tolerante, mas não indiferente; busca a verdade, mas não define a verdade; incentiva seus adeptos a pensar, mas não diz a eles o que pensar […]”

COIL, H. W.; BROWN, W. M., Coil’s Masonic Encyclopedia. New York: Ed. Macoy, 1961.

Poderíamos continuar utilizando desta última definição por muitas outras linhas, porém, o acima citado já nos basta, por ora.

Em face destas noções preliminares de Maçonaria, o Irmão Kennyo Ismail, em sua obra “Ordem sobre o Caos”, resumiu a Maçonaria em três pontos chave, assim definidos:

1. UM SISTEMA DE MORALIDADE

2. QUE É ENSINADO E APRENDIDO

3. POR MEIO DE UM MÉTODO PRÓPRIO DE ENSINO (alegorias e símbolos)

ISMAIL, Kennyo. Ordem Sobre o Caos. Ebook Amazon, 2019.

De imediato, então, verificamos que a Maçonaria, em sua acepção ampla, se enquadra exatamente na terminologia do verbete “educação”, especialmente ao se apresentar como um sistema, ou seja, um método para ensinar e aprender.

Já restou consignado, então, que o ensino está presente dentro da maçonaria. Ensinar e aprender….Mas ensinar e aprender o que mesmo? Percebam que falamos, falamos e falamos, mas retornamos à pergunta central destas linhas gerais…

Ao entendermos a Maçonaria como um SISTEMA, partimos do pressuposto que há algo por trás que a organiza, que traça os caminhos a serem trilhados. Para tanto, sem o intuito de aprofundar nesta temática, soa-nos razoável vislumbrar os RITOS MAÇÔNICOS como diferentes formas de organização deste sistema maior, que é uma ESCOLA…Escola de que mesmo?

DE MORALIDADE.

Falar de MORAL é algo extremamente complexo, desafiador, porém, necessário, Não iremos nos ater às definições extremamente filosóficas e subjetivas do que seria MORAL. Partiremos diretamente para a MORAL MAÇÔNICA.

Antes mesmo de ser admitido em uma Loja, o candidato já toma ciência das regras e procedimentos que regem à maçonaria, passando por uma sindicância e consequente escrutínio.

Posteriormente, ao ser admitido nas fileiras maçônicas, recebe diversos e por vezes confusos ensinamentos, que o fazem refletir sobre tudo o que passara e tudo o que lhe reserva na senda iniciática da Maçonaria.

A intenção de que se exista uma EDUCAÇÃO MAÇÔNICA, portanto, com base nos conceitos aqui trazidos, ainda que superficiais, é justamente a de organizar, ordenar estes ensinamentos, de modo a propiciar meios para melhor absorção por seus praticantes.

Não se pode negar, obviamente, que assim como a palavra dita, o ensino acaba sendo “metade de quem ouve, metade de quem profere“. Porém, indubitavelmente, se houver uma melhor sistematização e organização por quem a profere, haverá mais chance de aprendizagem.

Esse método de aprendizado, retornando ao estudo cunhado pelo Irmão Kennyo Ismail, dá enfoque ao uso de ALEGORIAS E SÍMBOLOS. Falaremos melhor sobre tais conceitos em um momento oportuno. Porém, de imediato, convém destacar que ALEGORIAS seriam as lendas de cada grau; ao passo que os SÍMBOLOS seriam os sinais, imagens ou objetos que representam determinada atividade, comportamento ou sentimento. Em outras palavras, alegoria é o ponto central das lições morais, enquanto os símbolos são aquilo que nos farão lembrar das citadas alegorias (ISMAIL, 2019)

Tais conceitos, aliás, são indissociáveis.

Em outras palavras, a propriedade de um símbolo é a de poder ser entendido de várias formas, de acordo com o prisma ou ângulo sob o qual é considerado. Valendo-se de um ensinamento maçônico, pode-se afirmar que para cada indivíduo haverá um ponto diferente para servir de apoio compasso, expandindo a interpretação de acordo com o raio de circunferência. Desta feita, os símbolos nada mais são do que referências para aguçar os sentidos e elevar o pensamento, jamais servindo como fim em si mesmo. São, portanto, o meio para se chegar à conclusão levada a termo pela síntese, ainda que essa conclusão seja mutável (BAETA, 2019).

A supracitada MORAL, então, refere-se aos ensinamentos (alegorias e símbolos) da Maçonaria, de cada Rito e de cada um dos seus Graus, inclusive nos Graus Superiores. Pensando nestes últimos, ademais, é facilmente perceptível que cada um deles traz consigo uma moral central, cercada de diversas outras questões a ela advindas.

Essa moral foge da subjetividade do ser, foge da alçada de subjetividade do maçom. Isso não significa que o mesmo não possa refletir, meditar, questionar sobre os ensinamentos lá contidos. Porém, assim como uma escola regular, sempre haverá um ponto de convergência nos citados ensinamentos, o que torna a Maçonaria tão especial e tão única.

A Educação Maçônica, então, poderia ser conceituada como o ensino das lições morais, com suas alegorias e símbolos, de forma organizada e ordenada, visando o melhor aprendizado e aperfeiçoamento das práticas.

REFERÊNCIAS:


BAETA, José Gabriel Pontes. Liberdade de Pensar: Estudos à Luz do Rito Moderno. Poços de Caldas: Edição própria, 2019.

COIL, H. W.; BROWN, W. M., Coil’s Masonic Encyclopedia. New York: Ed. Macoy, 1961

ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Ed. Universo dos Livros, 2012.

ISMAIL, Kennyo. Ordem Sobre o Caos. Ebook Amazon, 2019.

PRESTON, William. Illustrations of Masonry. New York: Masonic Publishing and Manufacturing Co., 1867.

Um comentário em “Notas sobre a Educação Maçônica – Parte 1

  1. Bela artigo ir. Baeta.
    Excelente oportunidade para refletirmos que a educação se inicia nos verbos ouvir, ler (sem distinção) e se concretiza no verbo refletir. Somente assim conseguiremos transformar Conhecimento bem Sabedoria.

    Curtido por 1 pessoa

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