Um conceito de Liberdade

O conceito geral de liberdade é, ao mesmo tempo, um dos conceitos práticos mais fundamentados e menos claros. Isso porque, seu âmbito de aplicação aparenta ser quase ilimitado. Praticamente tudo aquilo que aparenta ser bom ou desejável está ligado à liberdade.

Em regra, ao denominar algo ou alguém como “livre” não estamos apenas uma descrição, mas uma valoração positiva que suscita no ouvinte o interesse por também ser livre[1].

Uma análise de tudo o que se expressa ou está associado com a liberdade conduzirá a uma extensa e interminável filosofia social, moral e jurídica, o que, por óbvio, não é o intento destas linhas. Entrementes, um caminho que precisa necessariamente ser trilhado, para melhor compreensão deste ensaio, repousa na estrutura do conceito de liberdade, ou seja, naquilo que a compõe.

Nestes termos, para compreensão da citada estrutura, Robert Alexy[2] aduz ser primeiramente necessária uma indagação negativa, qual seja: “o que não é liberdade?” Para o auspicioso autor, liberdade não é um objeto, como um chapéu, que se pode ter ou usar quando desejar. Prosseguindo em seu raciocínio, assevera que a liberdade também não pode ser entendida apenas como uma qualidade do ser. Entendê-la simplesmente como uma qualidade faz com que desconsideremos eventuais embaraços ao seu exercício, o que também não seria recomendável.

A estrutura da liberdade, então, seria formada pela somatória das liberdades individuais, assim como pela manifestação da ação conjunta dos homens, momento em que a vontade livre está junto de si no seu outro. Assim, a liberdade não se restringe à sua mera referência. Ela requer a mediação de uma ação reflexiva para efetivar o seu caráter e se afirmar.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel[3] destaca a presença de uma “outridade” (alteridade) [4] que se perfaz como o seu outro, uma ordem institucional (social, jurídica e política) que representa a efetivação da liberdade subjetiva, elevada ao estatuto da objetividade.


Feito tal introito, para o caso vertente, a liberdade será considerada como a faculdade de poder escolher como pensar ou agir dentro de determinado grupamento social (Maçonaria), de modo a sujeitar-se à vontade coletiva (regras e regulamentos).

De imediato, então, conclui-se que o Maçom jamais será livre em sua totalidade, em sua plenitude. Isso, porém, não viola o basilar princípio libertário tão presente nos trabalhos Maçônicos, haja vista que a liberdade ainda possui dois aspectos a serem considerados:  o externo e o interno.

Ambas as noções (liberdade externa e liberdade interna) se relacionam e se comunicam, sendo impossível pensar em uma dissociada da outra. Em apertadíssima síntese, Immanuel Kant[5] trabalha a liberdade externa como “a relação minha para com os outros e vice-versa”, ao passo que a liberdade interna seria “a relação minha para comigo mesmo”.

No caso deste ensaio, importa aprofundar na liberdade interna, que, em última análise, representa nada mais que a liberdade de pensar, expressão que dá voz ao primeiro livro[6] por nós publicado, em 2019.


A liberdade de pensar (ou liberdade de pensamento) se afigura como a viga mestra sobre a qual o maçom formará sua opinião e manifestará suas posteriores ações. Este, por sua vez, carrega consigo o compromisso de lutar contra a ignorância moral e intelectual da humanidade, assim como de moldar a compreensão coletiva de que todas as liberdades (de pensamento, civil, religiosa, política etc.), são direitos inalienáveis do ser humano[7].

A Maçonaria é conhecida por congregar em seu meio “homes livres e de bons costumes”. Ainda que tenhamos particular restrição quanto a este conceito, não se pode negar a sua importância para os trabalhos maçônicos em geral. Como cediço, a liberdade, antes de representar o livre arbítrio de agir, representa a liberdade de pensar, de refletir. Em nossos trabalhos, defendemos a liberdade em geral, especialmente a de fazer ou não fazer algo. Esquecemos, às vezes, da liberdade de pensar, que nada mais é do que o livre exercício do que o ser humano tem de mais sublime: a sua racionalidade.

A conhecida frase “penso, logo existo” (ou em uma melhor tradução, “penso, logo sou”) [8] resume bem o que representa a liberdade interna ora em análise. Sem adentrar nas nuances da doutrina de Descartes, necessário parafraseá-lo para entender que a liberdade de pensar é o que nos faz existir enquanto maçons. Todos os ensinamentos práticos, ritualísticos, litúrgicos colimam para incitar no obreiro a necessidade de pensar, refletir, exercitar a síntese através da contraposição entre a tese e uma antítese.

Anote-se que é plenamente possível “passar” pela Maçonaria sem ocupar nenhum cargo, sem realizar nenhuma obra filantrópica, ou até mesmo sem realizar obra nenhuma. Porém, não é possível adentrar à Ordem sem que haja o exercício do livre pensar. Até porque, o simples ato de decidir pelo ingresso já representa uma escolha tomada com base na liberdade interna do candidato e posteriormente consubstanciada no exercício da liberdade externa.

Seja a Maçonaria uma escola de moralidade velada por símbolos e alegorias, seja um centro de união para homens livres e bons, ou seja ambas as coisas, certo é que a Maçonaria garante o exercício do maior presente que poderia oferecer: a liberdade de pensar. Maçonicamente, a liberdade se faz primeiramente presente no pensamento, como cediço, mas também repousa na missão que cada obreiro possui de libertar seus semelhantes do julgo da ignorância, do fanatismo, dos vícios e da tirania.

É pelo exercício e pela defesa intransigente da liberdade que o Maçom verdadeiramente se tornará um construtor social, um edificador de templos à virtude e de masmorras ao vício.


[1] Trata-se de uma possibilidade da denominada “persuasão positiva”. Em outras palavras, quem quer convencer alguém de algo, acaba por relacionar esta ação com a liberdade.

[2] ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. Ed. São Paulo: Malheiros, 2014.

[3] HEGEL, George W. F. Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses e Karl-Heinz Efken. Petrópolis: Vozes, 1992.

[4] Concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e é interdependente de outros indivíduos. A existência do “eu-individual” só é permitida mediante contato com o outro.

[5] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 5ª Edição. Trad.: Manuela Pinto e. Alexandre Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

[6] Liberdade de Pensar: Estudos à Luz do Rito Moderno, tomo I, 2019.

[7] Entendemos que para bem exercitar tais liberdades faz-se necessário instrução. Tal temática será abordada no ensaio imediatamente posterior a este.

[8] Originariamente escrita em francês, “Je pense, donc je suis”, também traduzida para o latim como “Cogito, ergo sum”, trata-se de frase presente na obra “Discurso do Método”, de René Descartes, em 1637.

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